Friday, January 11, 2013

YARA SALLES, radio speaker


Yara Salles was a popular radio announcer in the 1940s and 1950s broadcasting from Radio Nacional. She hailed from Taubaté-SP having arrived in Rio de Janeiro in the late 1930s. She had a small son called Victor Binot, who would later become famous on his own merit. By 1939, Yara was already working as a radio speaker.

Radio Nacional had been created in 1936 and was bought by the federal government in 1940 with the intention of making it the most powerful broadcaster in the nation. Radio Nacional moved to a new studio on the 21st floor of the building housing newspaper 'A Noite' in 18 April 1942.

In 1943, Radio Nacional started beaming two new shows that became so popular that wrestled the #1 position from Radio Mayrink Veiga, that up to 1939 had been King of the Waves having Carmen Miranda as a regular weekly broadcaster.

'Um milhão de melodias' (A million of melodies) was sponsored by Coca Cola that was being introduced in Brazil. The second show was 'Trem da alegria' (Joy Train) jointly presented by Heber de Boscoli, song-writer Lamartine Babo and Yara Salles. They were soon called Trio de Osso (Bones Trio) due to their being so thin, a pun intended on Trio de Ouro (Golden Trio) who were really popular then.

Yara Salles & Heber de Boscoli married in 19 August 1947 and 'Trem da Alegria' went on from strenghth to strength. 'A felicidade bate à sua porta' (Happiness knocks at your door) was also an extremely popular radio-show presented by Heber & Yara. They had a radio van equipped with transmitters roaming the suburbs of Rio in search of a house whose occupants used a pre-determined product manufactured by the show sponsor. Whenever this house was spotted, Emilinha Borba, a very popular singer then would knock at said house and would give their occupants a lot of gifts.

Yara Salles was multi-media when this word did not exist yet. On top of her radio-shows she also appeared on plays and musicals at the theatres on Praça Tiradentes - called Carioca Broadway.

In 1951, she decided to take part in a radio soap-opera translated from a Cuban original called 'O direito de nascer' (The right to be born) that would be so successful people didn't go out at evenings until the broadcast was over. It lasted from 1951 to 1953. Yara played a centre character, Mamãe Dolores, an old Black woman who raised a bastard white boy as her son who eventually becomes a doctor. The boy had just missed being aborted by his real mother, a rich girl whose father condenmed her to a life as a nun in a convent due to her transgression. Yara Salles was on top of the world.

Heber de Boscoli became ill and died in May 1956, at the height of his popularity. Yara Salles became the most famous widow in Brazil. She kept on working on radio until it was surpassed by TV in the 1960s.
Yara Salles on the microphone of Radio Nacional do Rio de Janeiro-DF.
'A Noite' building on a very strategic position in such a beautiful city as Rio de Janeiro.

Maria do Rosário Salles nasceu em Taubaté-SP,  a 27 Julho 1912 e faleceu em Bananal-SP, a 26 Junho 1986.


Heber de Boscoli, que morreu tão cêdo, em 1956.

Predestinado a ser um dos maiores expoentes do rádio brasileiro, Heber de Boscoli foi um criador de programas de radio no iniciante veículo. Estreou na Rádio Cruzeiro do Sul em 1937, tendo como companheiros Ary Barroso, Paulo Roberto, Carlos Ré e Ailton Flores, o Canarinho. 

Heber de Boscoli com seu talento criou programas como “A hora do Pato”, “Museu de Cera”, “A Felicidade Bate à sua Porta”, além do “Trem da Alegria”, em parceria com Lamartine Babo e Yara Sales, sua mulher, que ganharam o apelido de Trio de Osso  numa blague ao Trio de Ouro, conjunto vocal formado por Herivelto Martins, Nilo Chagas e Dalva de Oliveira. O “Trem da Alegria” foi um programa de sucesso tão grande que tinha de ser apresentado em teatros da cidade devido a sua imensa popularidade.

Deve-se a Heber de Boscoli a idéia de se compor os hinos dos clubes de futebol e a permanente cobrança a Lamartine para cumprir essa tarefa,  realizada com muito sucesso. Heber de Boscoli, teve um samba gravado em 1942, por Sylvio Caldas, Orlando Silva e Cyro Monteiro intitulado “Rosinha”, em parceria com Mário Martins. Heber de Boscoli faleceu prematuramente em 1956.

Rubens Amaral, Zezé Fonseca, Orlando Silva, Yara Salles, Heber de Bôscoli e Linda Baptista em Janeiro de 1943.
casamento de Yara Salles & Heber de Bôscoli em 28 Julho 1946, notando-se Lamartine Babo e a radio-atriz Zezé Fonseca à esquerda e Cesar Ladeira à direita.
O povo na porta da igreja no dia do casamento de Yara Salles e Heber de Boscoli em 28 Julho 1946.


Yara Salles & Heber de Bôscoli em momento de descontração.
Lamartine, Yara Salles e participantes do 'Trem da Alegria'.

Heber Bôscoli, Zezé Fonseca, Yara Salles & Lamartine Babo em 'Trem da Alegria'.

Yara, Lamartine, uma vedette e Heber Boscoli; Revista do Radio - Dezembro 1949


Continua o espetacular sucesso do maior acontecimento dos últimos anos em teatros-de-revistas. Reunindo o maior quadro de valores, Heber Bôscoli está apresentando no Teatro João Caetano duas horas de ininterrupta alegria a piramidal revista 'Quero ver isso de perto', onde Oscarito e Dercy Gonçalves fazem todo mundo gargalhar com suas piadas infernais. E não é só! Há também Yara Salles, Antonio Mestre, Eva Lanthos, Walter Machado, Cuquita Carbalo e muitos outros. E ainda muitas 'girls' sensacionais, muita musica, muita coisa para o publico ver, ouvir e aplaudir! Se ainda não foi, vá ver! Se já foi, volte!



o cotidiano de Yara Salles visto pela Revista do Radio em 1951.
Heber de Bôscoli no Anuário de Setembro de 1947 anunciando os programas 'Trem da Alegria' e 'A Hora do Pato'.
Yara Salles comanda o 'Trem da Alegria'... Luiz Americano segura seu saxofone...
Yara Salles, Gilda de Abreu, Lamartine Babo, mais gordo devido ter parado de fumar.
Yara Salles with Lucia Helena, Victor Costa (in the back in the middle), Aurelio de Andrade, Castro Barbosa, Fernando Lobo, Luiz Jatobá etc.


'Trem da Alegria' se transformou em revista-musical no Teatro Carlos Gomes.

Cessadas as viagens do 'Trem da Alegria', nem por isso diminuiu a popularidade de Heber de Bôscoli e Yara Salles. Ao contrário, o casal teve um ano ativíssimo em 1951 - tendo Yara obtido grande êxito com a interpretação da figura de Mamãe Dolores, na novela 'O Direito de Nascer', além de animar 'Viva as Saias'.

Heber lançou 'Museu de cêra' com grande sucesso na Radio Nacional. 'A felicidade bate à sua porta', junto à Yara foi seu programa de maior repercussão, além de 'Quanto é que eu levo nisso?'. Yara faz aniversario em 27 de Julho e Heber em 12 de Abril. Gostam de passar os raros dias de folga no sítio que possuem.

O DIREITO DE NASCER


Em 1951, 'O Direito de Nascer' foi ao ar pela Rádio Nacional, o maior fenômeno de audiência em radionovelas em toda a América Latina. Era apresentada às 2as., 4as. e 6as. feiras no horario nobre noturno. Texto original do cubano Felix Caignet com tradução e adaptação de Eurico Silva.

O original possuía 314 capítulos o que correspondia a quase três anos de irradiação. No elenco estavam:

Nélio Pinheiro (narrador), depois substituído por Mario Lago;
Paulo Gracindo (o médico bastardo Albertinho Limonta);
Isis de Oliveira (Maria Helena de Juncal ou Sóror Helena da Caridade, a mãe verdadeira de Albertinho, que o abandona em criança nos braços de uma negra);
Yara Salles (a sofrida negra Mamãe Dolores);
Dulce Martins (Isabel Cristina, o interesse romântico do galã Albertinho);
Talita de Miranda (Graziela, a 'sirigaita' que quer roubar o Albertinho da Isabel Cristina);
Roberto Faissal (Don Jorge Luis Delmont);

'O Direito de Nascer' surpreendeu a todos os críticos e a todas as previsões que afirmavam que o rádio-teatro era um gênero em decadência e que o público brasileiro não se interessava por longas tramas.

'Revista do Radio' 22 Julho 1952, no auge da popularidade de 'O Direito de Nascer'.
Isis de Oliveira fazia Soror Maria Helena e Paulo Gracindo, seu filho bastardo, dr. Albertinho Limonta, criado por uma negra que ele chamava de Mamãe Dolores (Yara Salles). 
Paulo Gracindo (dr. Albertinho Limonta), Talita de Miranda (Graziela, a sedutora), Dulce Martins (Isabel Cristina, a mocinha da novela), Darcy Cazaré, Yara Salles (a sofrida Mamãe Dolores), o ensaiador da novela e o tradutor da mesma. 
Yara caracterizada de Mamãe Dolores na Revista do Radio - 1952.

Mario Faccini (autor de radio-novela), Isis de Oliveira (Sóror Helena), Roberto Faissal (Don Jorge Luis), Eurico Silva (adaptador da novela), Yara Salles (Mamãe Dolores) e Floriano Faissal - todos participantes da novela 'O Direito de Nascer' em 1951 - no topo do edifício da Radio Nacional do Rio de Janeiro.


Yara Salles expressa seu entusiasmo pelo governo de Getúlio Vargas em reportagem da RR em 1951, diferentemente de Mario Lago, que diz que preferia que o brigadeiro Eduardo Gomes tivesse vencido as eleições.  
Sylvia Salles, irmã de Yara, em retrato tirado no Foto Moderno de Marília-SP (acervo Wilza Matos)

Sylvia Salles, irmã da radialista Yara Salles, morou na pensão dos meus avós Maria & José Matos em Bebedouro-SP e vinha sempre visitá-los em Marília, depois que mudou-se para o Rio onde se casou com o dono do Cassino da Urca. (Wilza Matos Teixeira).

Yara Salles in a 1941 portrait; Yara Salles writes a thank-you note to Maria Matos in Bebedouro-SP in 16 February 1942.
Maria & José Matos, Yara Salles e a irmã Sylvia, no Rio de Janeiro-DF circa 1952.

Wilson Matos, futuro radialista da Radio Club de Marília, sua avó Maria, avô José e Sylvia Salles em Copacabana circa 1952.

mais poses no Rio de Janeiro-DF - Agosto de 1952.

Sylvia Salles e seu marido Claudionor é o casal à esquerda.


uma atriz portuguesa, Yara Salles & Vitinho.
Victor Binot, orgulho de sua mãe Yara Salles.
Isis de Oliveira, Vitinho, Marlene, Nelson Gonçalves, Emilinha Borba & Carlos Galhardo.

Yara Salles, Vitinho Binot & Heber de Bôscoli
Heber, Yara e seu filho Vitor (e Lulú) em reportagem da Revista do Rádio.

Em 1937, Heber Bôscoli estreou na Radio Cruzeiro do Sul. Dali foi para a Radio Nacional, onde lançou 'A Hora do Pato', e, depois, 'Trem da Alegria'. Saindo da Nacional foi para a Radio Mayrink Veiga, depois a  Globo, em seguida a Tupi, a Radio Clube e, de novo, para a Nacional e a Mayrink. Recentemente moveu uma ação contra a PRE-8, pleiteando 5 milhões de cruzeiros pelo uso da 'Hora do Pato'. 

Yara Salles foi de Taubaté-SP para Rio de Janeiro e começou a trabalhar como arquivista do Ministério das Relações Exteriores. Entrou no radio em 1939, através da PRE-8. Dali em diante acompanhou Heber, com ele formando a dupla 'Trem da Alegria', mais tarde aumentada com a participação de seu filho Vitinho, que agora também anima auditórios.

reportagem da Revista do Radio sobre Yara, Vitinho & Heber.
Emilinha Borba ao lado de Heber de Bôscoli na parte culminante do programa 'A Felicidade bate à sua Porta'.

A Felicidade Bate à sua Porta

era um dos programas da Radio Nacional, de maior sucesso. Enquanto Yara Salles comandava do auditório parte do programa, Heber de Boscoli, em um furgão de externa, ia a um determinado endereço de subúrbio que fora sorteado durante a programação.

Chegando ao local premiado, verificava quantos produtos da União Fabril Exportadora existiam na residência, o que valia prêmios em dinheiro.

Claro que os vizinhos sempre arrumavam um jeito de arranjar tais produtos , porém a parte principal era quando a cantora Emilinha Borba surgia na porta de residência para cantar algo como: “Escandalosa”, “Assim se passaram dez anos” ou “Chiquita Bacana”. Nesta hora, era comum a vizinhança invadir a residência do premiado, como se vê na foto, literalmente arrasando tudo o que havia pela frente. 


reportagem da Revista do Radio de 1951.

Yara na revista Radiolândia em 1955.

Yara Salles & Heber de Bôscoli circa 1955, em foto publicada na Radiolândia de 11 Agosto 1956.

Os últimos momentos de Heber de Bôscoli 

Fatos emocionantes antes do falecimento

Os derradeiros momentos de Héber de Bôscoli foram revestidos de fatos emocionants. Um deles: Heber chamou Victor Costa (seu grande e íntimo amigo), pedindo-lhe um aparelho de gravação, horas antes de falecer. Queria deixar gravado seu pensamento final, um adeus da vida. Foi-lhe feita a vontade. Veio o aparelho. Mas não foi ligado. O coração de Victor Costa e de outros em volta, não teriam coragem para êsse ato. Não seria mesmo humano. Mas ainda assim Heber disse palavras bonitas. Despediu-se de seus amigos, louvando um por um. Chamou Yara Salles e pediu-lhe que não deixasse que os programas famosos parassem. 

Heber tinha por Yara verdadeira veneração. Dias antes da morte fêz questão de deixar por escrito que seu carro, o Cadillac 9-00, ficaria para sua companheira de tantos anos. Também um apartamento na Ilha de Paquetá. E coisas mais. Sem ter morrido milionário (como se poderia supor), ainda assim Heber de Boscoli já havia comprado um outro partamento para sua mãezinha. Tinha também avó. E morreu com a convicção de que Yara e Vitinho, talentosos e dinâmicos como ele, saberiam como viver, lutando pela conquista da glória e do dinheiro.

Houve um outro instante em que Heber de Boscoli despertou de um ligeiro sono. E disse então para os presentes que já tinha falecido, que já tido ido ao outro mundo e se achava de volta, por alguns instantes, para rever a todos, num gesto de extrema bondade de Deus. E teve nesse momento palavras amáveis para com a Morte. Disse que a via, alí perto dele, à sua espera... E que dela não tinha mêdo. Apenas lamentou, com palavras serenas, que ainda não se começasse desde cedo a ensinar às crianças, o que seja a Morte, uma coisa natural e fatal. 

Antes de entrar em estado de coma, Heber teve outras expressões como esta: 'Vou penetrar no grande mistério...' Muito sereno e conformado repetiu a frase. E disse também, diante da emoção dos que o cercavam: 'Deixo amigos aqui, mas vou encontrar outros...' E houve o instante culminante em que Heber disse: 'Não tenho mêdo. Estou apenas curioso. Mas estou preparado. Posso morrer'.

Claro que essas frases eram o fim do querido radialista.  E quando entrou em estado de coma, Yara retirou-se. Preferiu não mais vê-lo. Ela sabia que nada mais restava. E disse mesmo, de coração apertado: 'Fiz o que pude. Tentei salvá-lo. Mas agora ele já não me pertence, seu espírito agora é de Deus'. E assim foi. Yara Salles não mais viu o rosto de seu querido Heber.

Os irmãos de Heber de Boscoli e seus amigos mais íntimos foram os que assistiram o desenlace. E todos são acordes em que Heber foi um herói contra a moléstia que o perseguia há anos. Dizem alguns que ele poderia ter se tratado melhor, saído do Rio, procurado uma estação de repouso e recuperação, ou mesmo partido para um bom clima da Europa. Mas Heber não quis. No seu orgulho heróico até quando mais não pôde. Depois, vencido, entregou serenamente a alma a Deus. 

Revista do Radio de 23 Junho 1956.



Revista do Radio de 23 Junho 1956 anuncia o falecimento de Heber de Bôscoli.



Editorial da Revista do Radio escrito por Anselmo Domingos sobre o falecimento de Heber de Bôscoli.

Yara & Heber em caricatura de Mendes na Radiolândia de 14 Julho 1956.

Yara Salles é amparada por Ivon Curi na inauguração da placa com o nome da Rua Heber de Bôscoli em Novembro de 1956.


Yara Salles diz que 1959 foi um ano bom para ela devido ao casamento de Vitinho e sua volta à Radio Nacional.

Yara Salles em 'Câmera Um' 1959.

a inesquecível Yara Salles.

Vitinho Binot em 1963, depois de ter voltado da India.

reportagem sobre Vitinho na revista Cinelândia - Dezembro 1963.


Victor Binot deu uma longa entrevista ao Pasquim no final dos anos 60 sobre suas experiências na India.

Relembrando Vitinho

Há pessoas que ouvem uma voz dentro de si e, simplesmente, a seguem. Com o jovem Vítor foi assim. Filho de uma radialista famosa, Yara Salles, ele, simplesmente, partiu num avião rumo à Índia onde seria iniciado como monge budista. Naquela época, a sociedade brasileira ainda não aceitava bem as religiões orientais e criou-se todo um debate em torno do assunto que perdurou por meses.

O tempo passou, a TV exibiu uma entrevista com um homem na faixa dos seus trinta anos numa noite inesquecível, finais dos anos setenta. Rosto tranquilo e sorridente, Vítor Binot respondeu a todas as perguntas enfatizando da sua emoção quando entrou pela primeira vez no templo onde passaria muitos anos na convivência com seus mestres e amigos. As cores do local e os sons dos mantras budistas lhe proporcionavam momentos raros de elevação espiritual o que lhe serviu de base para o seu longo aprendizado religioso e pessoal. Aprendizado esse que foi repassado na sua academia familiar àqueles que o procuravam quando retornou ao Brasil.

Vítor não ficou muito tempo entre nós, faleceu de leucemia pouco depois, mas ficou imortalizado na alma de quem, de uma certa forma, compreendeu sua simplicidade de ser e, principalmente, a sua maneira de estar no mundo sem se apegar a ele como naquele ritual milenar em que monges principiantes pintam uma mandala com areias coloridas para, em seguida, desmanchá-la com um simples sopro.

A vida humana é apenas um sopro diante da eternidade, seria essa a mensagem?

caricatura do casal feliz: Yara Salles & Heber de Bôscoli.

'TREM DA ALEGRIA' e LAMARTINE BABO 
(texto de Norma Hauer sobre o programa)

Lamartine de Azevedo Babo nasceu em 10 Janeiro 1904. Perdeu seu pai muito cedo e começou a trabalhar na Light & Power Co. bem jovem. Aprendeu o Código Morse e foi trabalhar nos Correios.

Envolveu-se com o conjunto Bando de Tangarás em 1929, e seguindo conselho de Almirante, ingressou na Radio Educadora do Brasil, PRB-7, lançando 'Horas Lamartinescas Radioletes' e 'Perfis e Perfídias'. Criou um programa chamado Clube da meia-noite, que não foi aceito pelos censores de então. Lamartine, mudou o nome para 'Clube dos Fantasmas' e foi aceito.

Com a vinda de Cesar Ladeira para a Radio Mayrink Veiga, foi um dos primeiros a se transferirem para lá, levando seus programas e lançando a 'Canção do dia', onde comentava canções suas e de seus colegas.

'Com a letra A', uma marcha carnavalesca homenageando uma namorada de nome Alda, Lamartine estreou como compositor no Carnaval de 1931. Em 1932, Lamartine lançou 'Uma andorinha não faz verão'. Em 1933, 'O teu cabelo não nega', com Castro Barbosa, aquele que mais tarde faria dupla com Lauro Borges na famosa PRK-30. 'O teu cabelo não nega' era um estribilho dos irmãos Valença, compositores pernambucanos, que processaram a Victor Brasileira por quebra de direito autoral.

Em agosto de 1933, a Victor lançou em disco 'As cinco estações', um cateretê de Lamartine gravado por ele mesmo, Mário Reis, Carmen Miranda e Almirante, que apresentava o panorama do radio no Rio de Janeiro que crescia em popularidade assustadoramente. Eis a letra

AS CINCO ESTAÇÕES DO ANO 

(Lamartine) Antigamente eu banquei estação de águas
hoje guardo minhas mágoas
num baú de tampo azul;
já fui fraquinha, mas agora já estou forte
sou ouvida lá no Norte quando o vento está no Sul
transmite PRA-C cccc
transmite PRA-C cccccc.

(Mário Reis) Eu sou a Philips do samba e da fuzarca
anuncio qualquer marca do trombone ou do café;
chegada a hora do apito da sirene
grita logo dona Irene: liga o radio, vem cá, Zé!
transmite PRA-X xxxx
transmite PRA-X xxxxxx

(Carmen Miranda) Sou a Mayrink popular e conhecida
toda gente fica louca, sou querida até no hospício
e quando chega a sexta-feira em dona Clara
sai até tapa na cara só por causa do Patrício
transmite PRA-K kkkk
transmite PRA-K kkkkkk (k k k k)

(Lamartine) Sou conhecida aos 4 cantos da cidade
sou a Radio Sociedade, fico firme, aguento o tranco.
Adoro o clássico, odeio a fuzarqueira,
minha gente, fui parteira do Barão do Rio Branco.
transmite PRA-A aaaa
transmite PRA-A. aaaaaa.

(Almirante) Sou Radio Clube, eu sou é home, minha gente,
francamente sou do esporte, futebol me põe doente, oh!
no galinheiro se irradio para o povo
cada gol que eu anuncio a galinha bota um ovo
transmite PRA-B bbbb
transmite PRA-B bbbbbb.


A Radio Educadora PRB-7, é chamada de 'estação de águas', expressão usada entre o pessoal de radio para ironizar emissoras que iam mal. 

A Radio Philips ganha destaque pelo sucesso do 'Programa Casé' de Ademar Casé, e por atrair anunciantes de todos os gêneros. 

A Radio Mayrink Veiga PRA-9, era a emissora de maior audiência e Lamartine destaca a presença de Patrício Teixeira, cantor e violonista.

A Radio Sociedade do Rio de Janeiro, PRA-A, a 1a. emissora do Brasil, fundada por Roquette Pinto em abril de 1923, continuava como sempre, privilegiando a música erudita.

A última estrofe é dedicada à Radio Clube do Brasil, PRA-3, 2a. emissora do Brasil, fundada em 1924, e refere-se ao preconceito sofrido pelos primeiros narradores de futebol, citando um episódio vivido pelo locutor Amador Santos, que, proibido de transmitir um Fla-Flu, instalou-se em uma casa vizinha ao estádio e subiu num galinheiro para narrar a partida.  

Lamartine gostava de contar em seus programas que não podia sair de terno preto e gravata branca porque, magro e alto, poderiam confundi-lo com os postes de parada-de-bondes, que, pretos, tinham uma faixa branca.  

Havendo sido telegrafista, certa vez ingressou numa agência dos correios; dois telegrafistas, vendo-o trocaram a mensagem: 'feio, alto e magro...'; Lamartine, dedilhando sobre o balcão da agência, respondeu: 'feio, alto, magro e ex-telegrafista'. 

O programa mais popular criado por Lamartine foi o 'Trem da alegria', que apresentava junto de Heber de Boscoli e Yara Salles, lançado pela Radio Mayrink Veiga. Cesar Ladeira logo surgiu com o apelido Trio de Osso, parodiando o famoso Trio de Ouro, composto de Herivelto, Dalva e Nilo. 

Antes do 'Trem da Alegria' transferir-se para a Radio Nacional, passou a ser apresentado do Teatro João Caetano, pois o auditório da Mayrink era muito pequeno e o público interessado em assistir o programa 'ao vivo' era imenso. 

Com a morte prematura de Heber, o trio se desfez. Lamartine dedicou-se então à União Brasileira de Compositores, afastando-se das atividades radiofônicas. 

Em junho de 1963, enquanto assistia aos ensaios de uma peça em sua homenagem, entitulada 'O teu cabelo não nega', de autoria de Carlos Machado, Lamartine, muito emocionado, teve um ataque cardíaco vindo a falecer em 16 junho 1963, com 59 anos de idade. 

3 comments:

  1. Puxa, fiquei encantada com estas referencias, muito obrigada por divulgar. Vamos aguardar quem sabe posso encontrar os filhos da Sylvia ou ate a propria Silvia. Creio que ela deva ter uns 90 anos e provavelmente more no Rio. gracias Carlus!!

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  2. Fiquei interessada agora na Yara Salles, eu não sabia que ela era paulista...

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  3. Sim, Thais, por incrível que pareça, Yara Salles nasceu em Taubaté-SP e faleceu em Bananal-SP, lá perto de Rio Claro-SP. Só que sua vida profissional foi toda feita no antigo Distrito Federal.

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