Wednesday, July 25, 2012

Carmen-in-Hollywood as seen by Brazilians in the 1940s

Carmen Miranda became a famous singer in Brazil after she recorded 'Tahí' (P'ra você gostar de mim) in 1930 which was the biggest hit in Brazilian history until then. After that Carmen recorded myriads of 78 rpm singles for RCA Victor and with the growing popularity of Radio, Carmen never looked back.

In the mid-1930s Carmen switched record companies leaving US's Victor for British EMI (Odeon). Carmen had her weekly radio show on Radio Mayrink Veiga the most popular radio station in the country.

Whatever Carmen touched became gold. She and her kid sister Aurora Miranda travelled to Argentina and Uruguay every year to perform at local radio stations and at expensive night clubs. Carmen also appeared in films produced in Rio de Janeiro.

Carmen Miranda alongside Francisco Alves were the two most popular acts in the country throughout the 1930s.

In 1939, while singing at Casino da Urca in Rio de Janeiro Carmen was spotted by Broadway empresario Lee Schubert who had been cruising South America on a ship that made a stop in Rio on its way back from Argentina. Schubert was travelling with Sonja Hinie who was the one who actually thought Carmen Miranda would be a hit on Broadway.

Carmen was duly signed up by the Impresario and sailed to New York to perform in 'Streets of Paris', a popular show in the 1939-1940 Broadway season. Hollywood was Carmen's next step; she started making films for 20th Century Fox in California as of 1941.

Around 1943, when many of Carmen Miranda's Hollywood flicks had already been shown in Brazil there was a backlash against her from Brazilian movie-goers. 

Especially upper-class Brazilians were not happy with the way Carmen was portrayed in her US films. They thought Carmen played 'second fiddle'; she was always the main character's sidekick, never the main attraction. Brazilians resented being portrayed as dark skinned fellows dancing on the streets of Buenos Aires or Rio with a big smile on their faces. Middle class Brazilians saw for the first time in their lives how condescending North Americans treated South Americans... and they did not like what they saw on the silver screen.

Instead of coming to terms with their being treated as second-class citizens by the Big Brother in the North, Brazilians turned furiously against Carmen Miranda accusing her of being subservient to the yankees, saying she was a disgrace to Brazil, blaming her for not being blonde like Alice Faye, denouncing she could not act, she could not sing... Carmen became almost Enemy Number One to a certain sector of the Brazilian upper class and its intelligentsia who hated her for their own inadequacies, for their being a Third World country.

'Scena Muda' (Mute Scene) a movie fan magazine printed in Rio de Janeiro since the early 1930s received a lot of hate-mail from movie fans denouncing Miranda's 'betrayal'. 'Scena Muda', then started a weekly section where they asked their readers their opinion about Carmen Miranda's role in Hollywood: 'Carmen Miranda in the opinion of Brazilian fans'. Fans and foes wrote hundreds of letters to the magazine... and here is a sample of some of them. 


A partir de 1942 com os lançamentos sucessivos dos vários filmes que Carmen Miranda participou em Hollywood - 'That night in Rio' [Uma noite no Rio], 'A week-end in Havana' [Aconteceu em Havana] e 'Springtime in the Rockies', estranhamente 'traduzido' como 'Minha secretária brasileira', o público brasileiro começou a se chocar com os papéis que a Pequena Notável fazia nos gloriosos technicolors produzido pelos estúdios da 20th Century Fox.
De-repente o brasileiro, que estava acostumado a se identificar com os heróis e heroínas das fitas norte-americanas desde os primórdios do cinema na década de 10, se viu retratado na tela prateada e não gostou nada do que viu. Pela primeira vez o brasileiro viu como ele era retratado pelos loiros anglo-saxões: simples 'caboclos' morenos, geralmente de bigodes, usando chapeus de abas largas à la mexicana. O brasileiro já estava acostumado a ver sheiks árabes sendo representados como assassinos bárbaros, chineses, desde Fu-Manchu, a serem tratados como sub-espécie, negros como simples burros-de-carga, e principalmente, o nativo americano, o mais vilipendiado de todos, como sanguinários colecionadores de escalpelados piedosos brancos.
Boris Karloff como o horrível chinês Fu Manchu fazia todas espécies de maldades possíveis... o estereótipo levado às ultimas conseqüências. O mais irônico de tudo é que Karloff era inglês-da-gema. Hollywood além de reforçar estereótipos contra varias etnias, ainda dava emprego a atores de sua própria raça, a anglo-saxã.  
Desde os tempos de Rudolph Valentino, o árabe é visto como assassino desalmado.
O turbante ou pano-na-cabeça indica que o personagem é um facínora estrangeiro.
'The birth of a nation', de 1916, mostra que o bom negro (sempre um ator branco com a cara pintada) é aquele enforcado num tronco de árvore.
Todo 'índio' (nativo norte-americano) bom é um índio morto. Assim rezava a cartilha dos anglo-saxões que 'conquistaram' a America.
Cova coletiva para milhares de indios barbarizados pelos anglos no massacre de Wounded Knee em Dezembro de 1890. 
Peter Lorre em 'M'... aí poderia estar Carmen Miranda sendo acusada, condenada e executada.

De-repente o brasileiro viu Carmen Miranda sendo tratada como uma 'empregadinha' e chiou. Em vêz do brasileiro fazer uma análise profunda do relacionamento dele com o colonizador cultural yankee, ele resolveu jogar toda a culpa em cima da Pequena Notável. Como se fosse ela que tinha se 'rebaixado' em fazer papéis de morenas não-muito-inteligentes num mundo de loiras, ruivas e... mais loiros de olhos azuis.
Carmen Miranda caiu como uma 'luva' ao estereótipo já pré-especificado pelo norte-americano, para o qual, a mulher latina é vista como espalhafatosa, extravagante, sensual-em-demasia, não-muito-inteligente e outros epitetos mais. Só a título de comparação, o brasileiro é visto pelo norte-americano, como o imigrante nordestino é visto pelos paulistas e cariocas. Paulistas chamam as pessoas vinda do nordeste de 'baiano' ou 'cabeça-chata' e o carioca a chama de 'paraíba'. Lá nos Estados Unidos, o latino-americano é tratado da mesma forma, e ainda com o agravante da barreira lingüística. 
Preconceitos são preconceitos. Geralmente o preconceito vem da ignorância, da falta de conhecimento. E isso é justamente o que acontece nos USA, tanto quanto aqui. O norte-americano não entende o espanhol [ou português] e acha que tudo é 'ôba-ôba', que todos nós somos 'exóticos', com a libido à flor da pele [o qual, afinal, eles quase tem razão], que não somos muito inteligentes pois nunca entendemos totalmente o que eles falam.
Quando Carmen chega a Hollywood, talvez, não soubesse do 'papel' reservado a ela. Se soubesse, talvez não tivesse aceitado. Se não tivesse aceitado, seria só uma questão de 'arrumar as malas' e voltar p'ro Rio de Janeiro e continuar a cantar em programas-de-auditório na Radio Nacional, já que a Mayrink Veiga não era mais aquela de 1939, quando la Miranda saiu do Brasil acompanhada do Bando da Lua.
À Carmen foram dados papéis de Rosita, Chiquita, Manuelita e similares. Isso porque é assim a concepção dos yankees em relação ao brasileiro ou qualquer outro latino-americano. Quando os filmes de Hollywood, que Carmencita participava, começaram a passar nos cinemas daqui, o público cinematográfico, acostumado a se identificar com os 'mocinhos loiros' Clark GableErrol FlynnGary Cooper e outros super-anglos, ou com beldades como Betty Grable, loiríssima de pernas perfeitas, Ginger RogersJoan FontaineVivien Leigh e outras atrizes de descendência anglo ou escandinava, não gostaram nada do que viram na tela. Carmen Miranda, afinal, nunca foi germânica. Carmen era portuguêsa, o que os yankees chamam de 'mediterrâneos',o que já vem com uma carga considerável de preconceito e atitudes superiores embutidas.
O brasileiro comum, consumidor de filmes made-in-Hollywood não sabia disso. O brasileiro, coitado, saía do escurinho do cinema achando que era Cary Grant ou Tyrone Power, e iriam conquistar as beldades loiras e ruivas. Oras bolas. Nós somos um país tropical, e a maioria de nossa população sempre foi morena, mestiça, mulata. A ficha não chegou a cair, pois a maioria dos brasileiros se rebelaram contra a Carmen, coitada, que não estava sabendo de nada.
O brasileiro não gostou de ver Carmen Miranda protagonizando o papel subalterno que nós temos no 'concerto das nações'. Nós somos, simplesmente, a periferia do mundo-industrializado loiro e protestante. O brasileiro é de tradição católica ou até mesmo de ritos africanos... tudo, menos calvinista.
Não daria para competir com a 'mocinha' loira Alice Faye... nem que a morena Carmen quisesse... os brasileiros de dentro das salas escuras dos cinemas de todo país se contorciam em suas poltronas ao ver uma 'brasileira' tendo que 'ficar em seu lugar'... geralmente na cozinha, ou com o 'rapaz mexicano'.

Aos poucos começaram as reações contra os papeis que Carmen Miranda desempenhava nos filmes de Hollywood. Em 'A night in Rio', as pessoas já começaram a se contorcer em suas poltronas, pois, afinal, a 'mocinha' era a loira [aguada] Alice Faye e o 'bonitão' Don Ameche fica com a 'loira' e não com a 'morena'. Em 'Aconteceu em Havana' a onda 'anti-Carmen Miranda' se tornou maior ainda, pois Carmen, pasmem! faz o papel de uma simples... cubana! No terceiro filme 'Minha secretária brasileira', onde Carmen só reforça os estereótipos da latina americana aloprada, o público não agüentou e passou a odiá-la profundamente.
Os jornais brasileiros e a 'classe pensante' nacional, justamente por serem quase todos 'colonizados culturalmente', também não conseguiram equalizar a questão e passar o resultado de uma análise mais refinada para o público. E esse 'mal-estar', nunca resolvlido, persiste até hoje. Ninguem parou para analizar o relacionamento de superioridade que o norte-americano tem em relação a nós, brasileiros ou latino-americanos.


Hattie McDaniel reforçando o estereótipo da 'mammy' negra em 'E o vento levou'...

Para complicar mais a situação, o brasileiro acha que é 'superior' ao hispano-americano. Não sei de onde vem essa idéia exótica, mas o fato é, que o brasileiro acha que por falar português, ele se 'diferencia' dos outros sul-americanos. Ledo engano! Nós somos vistos exatamente como a mesma 'raça' de latinos, que moram abaixo do Rio Grande. Parem de bobeira e acordem p'ra cuspir, como se dizia nos anos 30.
Eu tenho particular predileção por esse assunto, pois morei e trabalhei na região de New York quando tinha 22 anos de idade e tive um 'rude awakening', ou seja, tive um choque cultural monumental, quando me vi como alvo de preconceito de todos os tipos. Admito que sofri, mas, depois de alguns anos, consegui 'dar a volta por cima'. O brasileiro ainda não se conscientizou que ele não é branco, ele é 'moreno'. É porisso que nossa classe dominante é tão preconceituosa e, francamente, desprovida de cultura.
Então, depois dessas considerações, passo a copiar as várias opiniões dos leitores da revista 'A Cena Muda' - a partir de 1943 - sobre o que eles acham do papel que Carmen Miranda fez no cinema de Hollywood. Infelizmente eu tenho apenas três números da revista, mas creio que já dá para se ter uma idéia do embate que se travou por aqui. Gostaria de poder ler toda a coleção de cartas, pois ela abre os olhos de quem já os tem aberto. Para quem nunca pensou no assunto, é uma ótima oportunidade para se entender o papel que o brasileiro faz no 'concerto das nações'. É um papel que ele não gosta muito, mas a aceitação é o começo para se poder mudar a situação, ou não!

CARMEN MIRANDA NA OPINIÃO DOS FÃS BRASILEIROS

Por iniciativa e sugestão de seus leitores, 'A Cena Muda' vem de instituir um inquérito junto aos fãs, sobre a a atuação de Carmen Miranda no cinema de Hollywood, após quasi quatro anos de sua permanência no grande país amigo. Tantas e tão divergentes são as opiniões divulgadas à margem das performances de Carmen nos primeiros filmes realizados com o seu concurso nos EEUU, que melhor será dar a palavra ao público pagante, consultando-o sob e o real mérito desses trabalhos e suas possibilidades de ordem artística. Vamos saber, enfim, da fonte mais insuspeita, decisiva e inapelável, qual o estado de espirito dos fãs brasileiros em relação à festejada artista.
Podem todos os que nos lêem, resumir em um máximo de trinta linhasdatilografadas, suas opiniões sobre Carmen Miranda, no-las enviando sem demora, dentro da seguinte orientação:
1o.  Sem conter ofensas pessoais aos adeptos ou não-adeptos da estrêla;
2o.  Apreciando os filmes já estrelados de Carmen, considerando-os melhores ou piores, e julgando as possibilidades da artista, após essas primeiras atuações;
3o.  Informando nome e enderêço - para controle particular, evitando-se assim a publicação de opiniões apócrifas.
É nosso propósito, estabelecendo tal inquérito, conhecer com exatidão as preferêncais do públic brasileiro e, conseqüentemente, orientar, mesmo à distãncia, a artista que daqui partiu, vai para 4 anos, e que tanta popularidade logrou alcançar nos EEUU, sem, com isso, nos negarmos o direito de criticar seus filmes com exatidão e justiça, tarefa para a qual, também agora, solicitamos o concurso dos leitores. Todas as respostas pró ou contra, serão publicadas, si obedecerem às condições acima.
Revista 'A Cena Muda' - 8 Junho 1943
PRÓ
Muito se tem falado de bem e mal da sempre Pequena Notável. Afinal, concluí que as opiniões tem sido, na maior parte, de má intenção, opiniões visando encerrar a carreira cinematográfica de Carmen Miranda nos EEUU. No meu pensar, a intenção desta 'enquête' é para divulgar defeitos que devem ser reparados, idéias, enfim, que possam ser aproveitadas para, daqui, os criticos orientarem a inexperiente 'estrêla'. Mas tal não se vem dando. Há até pessoas que dizem ser fãs de Carmen, possuirem albuns com inúmeros retratos dela, mas que agora a detestam pela sua má atuação em 'Aconteceu em Havana' [A weekend in Havana]. Ora, eu não posso acreditar que um fã, que se considera fã de verdade, acompanhando a carreira da sua artista favorita desde os áureos tempos do 'Tahí' até o delicioso 'Chica Chica Boom', chegue a detestá-la de-repente, só porque sua atuação em um filme não agradou. O que lhe digo com toda sinceridade, é que não gostei também do trabalho de Carmen em tal filme. Não julgava que depois de aparecer tão bem em 'Uma noite no Rio' [That night in Rio], viesse tão antipática em 'Aconteceu em Havana', sem aquele 'it' tão brasileiro que daqui levou e que tinha, nela, sua melhor intérprete. Com tudo isso, devemos ajudar a Carmen e não existe melhor oportunidade que agora. Ela está começando, embora muitos considerem 4 anos uma existência. Pois eu tenho certeza de que Betty Grable, com as qualidades que possue, inclusive suas lindas pernas, com 4 ou mesmo 6 anos de cinema, não era o que é hoje a Carmen. Isso é uma caracteristica de nós, brasileiros! Ela pode ter fracassado em 'Aconteceu em Havana', mas todas as 'estrêlas' tem seus acidentes, mesmo as mais famosas.  ALCIDES DA CUNHA - Rio de Janeiro.    8 Jun 1943.
CONTRA  
Acabo de assistir 'Minha secretária brasileira' [Springtime in the Rockies], aqui em São Paulo, e confesso que não pude melhorar o meu conceito em relação a Carmen Miranda. Uma vez mais Hollywood prova que é inútil insistir com a Pequena que de Notável não tem mais nada... sinão o título que lhe deram vocês, os cariocas, nos bons tempos. Betty Grable está deliciosa, John Payne continua o mesmo, sem grande destaque artístico, e até Cesar Romero, que ia naufragando de maneira lastimável em 'Seis destinos' [Tales of Manhattan], esmagado pelo pêso de tanta celebridade, sái-se mais ou menos. Carmen é que não pode dar mais nada. Nas Montanhas Rochosas, como em Havana, é aquela mesma péssima comediante, agora só brasileira no título... para a versão destinada ao nosso país. Não tenho tempo para me estender em considerações, mas quero apenas dizer que o quarto filme onde Carmen aparece, não melhora as coisas para o lado dela. Se vocês estavam esperando esta ultima 'chance', podem dissipar essa esperança. Ou querem esperar a quinta... [sem alusão] a quinta atuação artísitica de Miss Miranda?    JOSÉ CINTRA ARUEIRA - São Paulo.    8 Jun 1943.


Admiral é inaugurado em Seattle em 1942 com 'Weekend in Havana', justo o filme mais odiado pelos brasileiros.

CONTRA
Eu penso que a 'enquête' sobre Carmen Miranda está perdendo a sua finalidade. De uma sincera pergunta feita aos fãs ou não-fãs da artista, vem se convertendo num 'bate-papo' fastidioso e irritante, onde os adeptos da Garôta não se cansam de lançar mão de todos os recursos. O último, que tenho sentido mais de perto, é este: Insinuar que é tempo de acabar com este inquérito de 'A Cena Muda'. Sim, é bom acabar porque... a Pequena não está levando a melhor! E como está faltando argumentação coerente para defendê-la, nada como proclamar que é melhor acabar com isto. No entanto, eu não dei ainda o meu palpite. E afirmo que o faço com toda a lealdade. Acho que devemos dar uma ultima oportunidade a Carmen Miranda para então decidir si ela é ou não o fracasso que 80% da população brasileira já admite que ela seja. Mas o certo está em poder dizer que nas suas 3 primeiras aparições, Carmen nada fez no sentido de se elevar no conceito da crítica e do público. Tem descido, isso sim... E si não se salvar a tempo, ela terá de reconhecer que nós, seus fãs de quando a ouvíamos na Mayrink ou de Buenos Aires - 'Alô, macacada!' - devemos mesmo é cuidar de outra vida e voltar nossas predileções para outra 'estrêla'.    CECI AGUIAR - Petrópolis-RJ.   8 Jun 1943.
Nota do blog'Alô, macacada!' se refere a uma entrevista que Carmen Miranda deu 2m 1937 a um radialista brasileiro que a entrevistou em Buenos Aires, Argentina, onde ela estava fazendo uma temporada numa radio portenha. Carmen, que era muito brincalhona, mandou um recado aos cariocas, saudando-os:  'Alô, macacada!' Uma certa casta brasileira não gostou do tom de Carmen, e houve uma longa polêmica devido a essa frase infeliz dita num momento de desconcentração. Veja que a leitora Ceci Aguiar, moradora de Petrópolis, não se esqueceu desse fato ocorrido muitos anos antes. A razão pela qual uma parte dos brasileiros odiou o termo 'macacada', talvez tenha a ver com a conotação racial da expressão. Como você se atreve a me equiparar aos negros? muitas vêzes chamados de 'macacos'. Vide o termo 'macaca-de-auditório', que foi assim cunhado devido ao fato de uma parte do auditório da Radio Nacional ser constituído de mulheres negras; 'macacas', no linguajar dos racistas de plantão.
CONTRA
Quero cingir-me rigorosamente às 30 linhas, sinão ainda a menos, para emitir minha opinião sobre Carmen. Desfavorável. A princípio, quando esta 'enquête' começou, confesso, eu era capaz de brigar com as minhas companheiras de colegio. Hoje, convenci-me que estávamos iludidas. Carmen não podia ser boa comediante pois agora o provou mesmo ao lado dos bons diretores e dos colegtas de categoria que lhe deu a Fox. Não penso que possa reabilitar-se. E vou ficar por aqui mesmo, pois já notei que muitas opiniões favoráveis, parecem obedecer a uma orientação unificada, todos lêem pela mesma cartilha e chego a pensar que há um mesmo 'fã' mandando dezenas de cartas com textos diferentes, para salvar a reputação da artista... de tal maneira os argumentos se repetem. Portanto, Carmen: Meu voto é contra... Desculpe.      DIDÍ C. OLIVEIRA - Rio de Janeiro-DF.   8 Jun 1943.
PRÓ
Terá por acaso Carmen anulado a descoberta de Colombo, casando com um japonês ou mudado a nacionalidade de Dumont? Ou descobriram que possue sangue ariano? Por que então ela maguou tão profundamente os brasileiros? Ou aconteceu uma coisa muito séria ou essa gente é muito fútil. Folheando revistas velhas, encontro, feita por alta personalidade, uma lista dos dez melhores e mais importantes feitos destes ultimos anos. Entre eles, o interesse do Brasil pelos americanos. Um dos Cabrais contribuindo para isso, foi, sem dúvida Carmen Miranda. Logo que chegou nos EEUU pensou-se que fosse mexicana, espanhola, tudo menos brasileira. A primeira crítica falou da Pequena Notável cantando em castelhano. Só depois souberam que a figurinha viva e exótica das 'Ruas de Paris' ['Streets of Paris', musical da Broadway da temporada 1939-1940 que Carmen tinha participação] fora do Brasil. E quizeram saber como era e onde ficava esse país. Era ainda o tempo em que o 'luar carioca brilhava na aguas do Prata e o Rio era Buenos Aires e Buenos Aires, o Rio', como conta Erico Verissimo em 'Gato preto em campo de neve'. Não quero desmerecer o trabalho de embaixadores, diplomatas etc. Mas o certo é que, com justica, Carmen será lembrada pelos historiadores do futuro quando escreverem a nosso respeito. Apesar de não ser Nostradumus, creio firmemente nisso.     GIL VICENTE BARBOSA - Casa Costa-Uchoa, São Paulo-SP.
CONTRA
Porque ninguém se explicou ainda, eis-me aqui falando aos diretores dos EEUU que lerão esta coluna e se deixarão influir por ela. Quero que saibam que nós, discutindo Carmen Miranda, não estamos, nem por sombra, querendo que desconfiem da estrêla ou deixem de renovar-lhe o contrato. Estamos apontando suas falhas, orientando, é claro, com a capacidade que possuimos, tanto Miss Miranda quanto seus dirigentes. Provamos que chega de ciúmes, correrias, exagerados turbantes. Queremos coisas mais sérias, papéis mais cheios de oportunidades. O real é que somos contra a Miranda que apareceu até agora. Não nos esquecemos que tiveram muitas intenções boas no começo, mas isso não basta. Si quizer continuar simpática no Brasil, a produtora de Carmen deve ser mais diplomata, dando melhores argumentos e diretores superiores à La Miranda. Estaremos daqui atentos. Nós, os do contra, podemos er pouco simpáticos a muita gente, mas, reconheçam que somos analistas sérios não aplaudindo defeitos, mas implacávelmente corrigindo-os. Si Carmen melhorar depois disto, agradeça-nos. E que os senhores diretores de Hollywood guardem bem isto...      ANA MARIA FERNANDES - Araraquara-SP   8 Jun 1943.
Nota do blog:  esse tipo de carta é típico. Pessoas que acreditam que diretores de Hollywood vão ler uma revista publicada em português num país qualquer da America do Sul. Isso prova que os brasileiros não entendiam nada do mundo Imperial, como até hoje pouco entendem. Os brasileiros até hoje acham que o Golpe de 1964 foi perpetrado por brasileiros. Não, o Golpe foi planejado em Washington e os militares anti-patriotas o executaram seguindo a planta feita em Washington. A pobre escrevente, moradora da simpática cidade de Araraquara-SP, dá-se a ares de 'poderosa', exigindo melhores argumentos e diretores para o próximo filme de Miranda. Dá para se ver que a maioria das pessoas não tem noção da realidade mundial, da 'realpolitik'. O pior de tudo é que essa atitude de soberba e ignorância, que de certa maneira, prevalece até hoje.


Camen ladeada por John Payne & Cesar Romero. Lá ela era rainha, aqui ela era ré!
CONTRA
Eu penso que dona Carmen Miranda deve sentir-se extraordinariamente desvanecida com a consideração especialíssima que lhe vimos dando, discutindo por tanto tempo, em tantas páginas, seus débeis trabalhos em três filmes que a gente só não esquece porque nos surpreenderam os máus aproveitamentos de suas aptidões. Sou dos mais velhos admiradores da artista e sempre acreditei que possuísse maiores dotes de raciocínio do que realmente possue. Não quero dizer que não seja inteligente, mas admito só que seu raciocínio deve funcionar em câmera-lenta, do contrário, dona Carmen, há muito tempo, teria tomado uma deliberação mais acertada: Trabalhar mais no radio e nos night-clubs e menos no cinema, pois ganharia o mesmo e não teria essas decepções. Eu acredito que em outro estúdio a coisa seria a mesma pois o mal não é dos diretores, vamos deixar de perseguição - mas o mal está nas inaptidões da artista. Sinão, vejamos: Não são os próprios simpatizantes da artista os primeiros a reconhecer que ela está fazendo um bonito? Ora, si faz um bonito - é porque tem diretores, tem tudo a seu favor. E de fato, nunca brasileiro ou brasileira teve uma oportunidade tão magestosa quanto a que Hollywood deu à dona Carmen. Isso de dizer que ela favoreceu a campanha de aproximação Brasil-EEUU é de uma infantilidade de pasmar. O contrário é que tem fundamento: A aproximação Brasil-EEUU foi que favoreceu dona Carmen. E si ela não fosse tão ingrata - benza-a Deus, - seria a primeira a reconhecer.       JOÃO SEGISMUNDO  L. - Belo Horizonte-MG   8 Jun 1943.
Nota do blog:  O ódio pessoal contra Carmen Miranda é visível nessa carta escrita de Minas Gerais. Ele se refere, irônicamente, à Carmen com o título de 'dona'. Chama-a de ingrata e se continuasse, possívelmente pediria a 'pena de morte' a ela. Não sei onde o escrevente tirou a noção que trabalhando no radio e em night-clubs os vencimentos de Carmen seriam os mesmos.
PRÓ
Foi em 'Serenata Tropical' [Down Argentine Way] que eu vi a facil vitoria de Carmen no cinema americano. Depois assisti 'Uma noite no Rio', achei o filme estupendo. Principalmente levando em conta que a Carmen mal pronunciava uma palavra em inglês. Em 'Aconteceu em Havana', vi que ela era a maior comediante brasileira em Hollywood. As más línguas disseram que a Carmen, nos filmes, parece uma alucinada. Mentira. Ela possue o segredo de agradar, tem personalidade. E venceu em todos os papéis. Quando li notícias que a Carmen fora contratada, disse comigo: - Ela vai fazer na terra de Tio Sam o que fez no Brasil... - E agora, digam-me os que ela mal conhece, fez o que estamos vendo. Logo... Carmen, você é uma grande estrêla. E deixe quem quizer falar...    WALTER  GIORNO   Rio-DF.
Revista  'A Cena Muda'  -  15  Junho  1943
PRÓ


Eu considero Carmen um sucesso indiscutível. Mas já que alguns afirmaram que as verdadeiras e boas estrêlas são as que começam de baixo e devagar, gostaria de saber si se lembram de Vivien Leigh, a magnífica intérprete de Scarlet O'Hara em 'E o vento levou', e também de Greer Garson, a Mrs. Chips de 'Adeus Mr. Chips'. Outros reclamam porque a estrêla não tem cantado sambas em todos seus filmes, devo recordar-lhes que em 'Serenata Tropical' [Down Argentine Way] ela fazia o papel de Carmen Miranda e creio que só cantou sambas. No filme 'Uma noite no Rio', cantou, além de sambas, um fox em inglês e falou nesse idioma em várias cênas. E no tão discutido 'Aconteceu em Havana', fazia o papel de uma cubana e assim mesmo ainda contou um samba. Devem, saber que as artistas interpretam varios papeis e com eles variam suas nacionalidades. Chamo uma vez mais o exemplo de Vivien Leigh que, como todos sabemos, é inglêsa e  no papel feito em 'Gone with the wind', era uma estadunidense sulista. Pois não lhe fizeram a menor crítica na Inglaterra por isso. Creio pois estar Carmen Miranda perfeitamente integrada no ambiente artístico cinematográfico dos EEUU. E além disso, poderá com certeza melhorar cada vez mais as suas possibilidades de artista. Devemos orgulhar-nos de possuir uma patrícia com tal projeção no cinema dos EEUU.     GERALDINA MOURA  Rio de Janeiro-DF.   15 Jun 1943.
Nota do blog: Talvez o grande 'pecado' de Carmen Miranda tenha sido justamente o de ter protagonizado o papel de um cubana. Como se atreve uma brasileira fazer um méro papel desses? A prepotência e arrogância do brasileiro é tão grande quanto sua pequenêz no concerto das nações.
A inglêsa Vivien Leigh fez papel de uma americana do sul em 'E o vento levou';  já Carmen foi vilipendiada por ter protagonizado o papel de uma cubana em 'Aconteceu em Havana'. Pois pesos e duas medidas. O complexo de inferioridade do brasileiro em relação aos anglos se escancara em seu ódio de se ver retratado pelos seus 'senhores'.

John Payne fica com a loiríssima Alice Faye... e o moreno Cesar Romero fica com Carmen Miranda, que teve a paxôrra de ter nascido morena e mediterrânea. O brasileiro, colonizado culturalmente, não perdoa seu similar. Ele, no fundo, se identifica com seu Opressor, o loiro anglo-saxão, que impõe sua música, cinema e cultura aos povos morenos dos Trópicos. Além de tudo, Carmen fazia uma cubana no filme. Que ousadia ser uma relés 'centro-americana'. Isso tudo nos anos 40. Imagina se fosse depois de 1959, Carmen, provavelmente teria sido chamada de comunista pró-Castro.


Essa é Green Garson, a ruiva que era o 'xodó' de Mr. Louis B. Mayer, manda-chuva da Metro Goldwyn-Mayer. Será que os judeus também sofrem do mesmo complexo-de-inferioridade em relação aos povos nórdicos que aflige o brasileiro?

CONTRA
Não sou afeito à vulgaridade de endeusar os nossos 'valôres artísticos' e nem mesmo os 'estrangeiros'. Felizmente não pertenço ao 'team' dos empolgados por vêzes, adjetivadas, ou por 'xodós' provocados pela nova arte de distrair o grande público: o cinema.  Rio-me dos fracos-de-espírito que costumam rasgar paletós de astros e sáias de estrêlas. Também não pertenço ao 'team' dos que se empolgam por detalhes da vida desses 'entretedores' das horas vagas. Entretanto, tenho acompanhado com certo interesse os prós e contras de Carmen. Ora, como artista ela é um grande divertimento para os homens dos dólares, ávidos de algo diferentre e que já não se contentam com suas 'girls'. Uma morena sensual, requebrando à sua frente, é o suficiente para fazer jús ao ingresso pago ou às despezas do night-club. E aí se resume o 'grande sucesso'  da grande Carmen, nada mais... Como sambista, si algum valor possue, sua arrogância e pretenção absorvem seus méritos. Infelizmente, nós brasileiros, temos este fraco. Somos exagerados. Comparemos tudo com o andamento da Guerra. Sintonizando qualquer emissora nacional escutamos o locutor se exaltando... Avança sem cessar, destróe e quer liqüidar tudo com a ênfase mais inflamada... Parecem fazer, não a descrição das notícias da guerra, mas de uma corrida-de-cavalos ou um jogo-de-futebol. Sintonizemos a BBC ou qualquer das grandes estações americanas e verificamos exatamente o contrário. Comentários discretos, notícias lidas sem exagêro e dignas de serem escutadas com toda atenção. Pois com a Carmen se dá o mesmo. Fizeram dela um jogador-de-futebol e a convenceram de ser uma coisa louca. Resultado: foi para os EEUU e lá está ganhando os seus dólares favorecida únicamente pela diferença de câmbio.    BRASILEIRO DO SUL - Ponta Grossa-PR.  15 Jun 1943.
Nota do blog:  O Apócrifo de Ponta Grossa-PR chama Carmen de arrogante e pretenciosa, mas parece que é ele próprio o pretencioso. Tenta ser espirituoso, mas não consegue o intento. E sua cartada final cai no ridículo, pois Carmen ganhou muito mais dólares nos EEUU do que a simples diferença cambial a qual ele se refere. A aritmética dela não adiciona, só subtrae.  

CONTRA

Meu Deus, como se pode ser incoerente só para elogiar uma simples cantora-de-sambas que quiz ser artista-de-cinema e não poude! Leio uma resposta em 'A Cena Muda'. Ela diz assim: 'Em 'Aconteceu em Havana', vi que era a maior comediante brasileira em Hollywood.' Já é ter paixão! Que outras comediantes já tivemos lá na América do Norte, senhor fã de Carmen? E quando tivéssemos, não precisaria fazer nada demais para suplantar o trabalho de Carmen no famigerado 'Aconteceu'. Si, só mesmo sendo a única por lá, pode-se dizer que é a maior. A maior, sem ter com quem fazer confrontos... Mas eu pensso que até a Aracy de Almeida, si fosse filmar, faria mais sucesso. Ou então a Dercy Gonçalves, com aquela sua boquinha de anjo e aquelas pernas para atrapalhar, na cintura e na cabeça. Si Carmen Miranda viésse agora para o Brasil, faria mal, mal mesmo, porque o tempo dos cantores de samba em maior evidencia, vai muito longe. E para fazer papéis em radio-novelas, Carmen também não serve pois em se tratando de representar, é aquela tragédia que nós vimos nos filmes da Fox! Portanto, o melhor mesmo é Carmen deixar-se ficar lá por longe, até porque o seu predomínio de cantora está em desacordo com o momento do radio brasileiro. Eu acho é que estas respostas da enquête de 'A Cena Muda' podem prestar um relevante serviço à estrêla, abrindo-lhe os olhos e aconselhando- a trabalhar com maior cuidado, que é o que ela precisa. Mas não pense em vir para o Brasil, pois aqui tudo mudou. E vai mudar ainda mais... JURACI A. AGUIAR  Rio de Janeiro-DF.

Nota do blog: Mais uma carta agressiva, onde o autor despeja todo seu ácido, ódio e preconceito em cima não só de Carmen mas contra Aracy de Almeida e até Dercy Gonçalves. Um cidadão misógino, sem dúvida.
PRÓ
Si vamos por muito tempo recriminar alguem, troquêmos a vítima! Em lugar de Miss Miranda, coloquêmos Corinne Luchaire e... para frente! Carmen não merece isto! A nazista cínica e traidora, sim! Lemos nos jornais a recusa apresentada por Carmen a um multimilionário engenheiro de Chicago que lhe pedira a mão em casamento. Prova que não está louca pelo 'money' como querem, maliciosamente, insinuar. E que tragédia não haveria si Carmen se casasse? Quanta dose de veneno não seria incluída à sua história! Acho que nunca umas mãos foram tão comentadas quanto as de Miss Miranda. Elas, realmente, são admiráveis e únicas, expressam com precisão os rítmos, os pensamentos interiores. A arte de Carmen não pode ser comparada à arte estudada de Bette Davis ou Greer Garson. É uma inovadora, uma revolucionária. É a arte silvestre, real, não-influenciada. Não foi criada. Mãos, olhos, corpo, a alma de uma raça, ou, pelo menos, a influência dela, exibindo-se aos olhos do mundo. Si o samba tivesse uma alma, seria a de Miranda. Afirmo que seu lugar continua vazio aqui no Brasil. Por que não grava discos em português ou não canta em nossa língua algumas canções de filmes? Nós aqui agüentamos durante anos, letreiros. Por que os americanos do norte não podem agüentá-los de vez em quando? Por mais cinco anos, segundo o ultimo contrato firmado com a Fox, Miranda estará nos EEUU. Tenham dó de nós! É muito tempo! Só mesmo inventando um fracasso e obrigando-a a voltar...   CLODOALDO DE MEDINA   Santos-SP    15 Jun 1943.
Corinne Luchaire, atriz francêsa pró-nazista durante a ocupação da França pela Alemanha.
PRÓ
Sim, eu sou fã de Carmen... porque sou, acabou-se! Não me perguntem o motivo. Gosto dela porque sempre gostei e não procuro saber a causa ou razão, como na modinha antiga. E quero fazer um apêlo aos senhores do 'contra': 'Basta! Tenham piedade da minha artista predileta! Que coisa, tanta implicância! Eu sei que os senhores tem razão em muita afirmação que fazem. Carmen no cinema não foi o que eu também esperava. Carmen silenciou quanto ao Brasil e os brasileiros. Carmen é ingrata! Mas que querem? Eu gosto dela assim mesmo, até chego ao ponto de fazer-lhes esse apêlo! Não sou parente de Carmen Miranda, nem nunca a vi. Acho é que ela merece a nossa simpatia porque canta como ninguem, tem graça como ninguém e acabou-se, taí... Deixem Carmen Miranda socegada! Chega de tanto judiar com ela... do contrário, vai ser preciso contratar dois ou três advogados para defender... Porque só nós, os seus fãs, já não podemos mais... MARIETA DE SÁ   Vitoria-ES     15 Jun 1943.
CONTRA
É impressionante o resultado desta enquête que os senhores vem fazendo por esta revista! A principio, pensei que tudo fosse propaganda, mas vejo agora que se trata de uma atitude desassombrada, pois quem seria capaz de enfrentar os preconceitos e convencionalismos antigos para divulgar uma opinião contrária ao propalado mérito ultra-fabuloso de Carmen Miranda? Houve tempo em que a gente corria risco de ser grudado na primeira esquina e levar dois cascudos... Mas o público convenceu-se de que a Pequena não era tão Notável quanto se dizia e sua notabilidade, acabou sendo pronunciada em outros aspectos. No cinema, Carmen foi uma negação. Dêem-lhe quantos filmes quizerem, escolham com um prego aceso o asunto mais favorecido, confiem-na ao diretor de maiores recursos, troquem-na da Fox para qualquer outro estúdio e o resultado será o mesmo. Três vêzes nove igual a vinte-e-sete, noves fora, nada! Literatura, romantismo, não adianta. Ainda é argumento sólido e intrínseco. Carmen já fez algo que prestasse em cinema? Não. Carmen fica bonita em cinema? Não. Carmen tem possibilidades no cinema? Lógicamente ... não.
Eu penso que melhor seria a Fox procurar outro elemento brasileiro si porventura quer prestar-nos uma homenagem. Mas não insistir com a pobre Carmen, que também agora, em 'Minha secretária brasileira' [Springtime in the Rockies] , nos mostrou ser uma negação espontânea para o cinema. Vi o filme aqui em São Paulo, no primeiro dia, sem nenhuma enchente. E três dias depois, era como si fosse uma película de linha, com um astro qualquer dos mais apagados. Quando o filme passar aí no Rio, os senhores vão certificar-se desta grande verdade. A quarta experiência de Carmen no cinema, serviu apenas para confirmar os três desastres anteriores.  EUCLYDES MOURA  São Paulo-SP    15 Jun 1943.
Nota do blog:  A impressão que se tem é que os mais acérbicos críticos de Carmen em Hollywood são do sexo masculino. Nesse caso, ele afirma que todos os filmes de Carmen foram fracassos, o que é uma inverdade absoluta. Americano não dá ponto sem nó. Todos os filmes que Carmen apareceu até 'Springtime in the Rockies' foram campeões-de-bilheteria, portanto, seus críticos brasileiros estavam totalmente enganados, ou vivendo no mundo da lua. Os filmes que Carmen apareceu não eram para o mercado latino-americano, mas para o próprio mercado interno yankee, que sempre foi o mais poderoso econômicamente. Os brasileiros, coitados, não signficavam nada ou quase nada. É justamente essa falta de perspectiva histórica que leva a tanta burrice e inverdades nessas críticas raivosas. Dá até para entender que as pessoas não gostassem da maneira como Carmen era retratada no cinema. O que não dá para entender é a raiva contra a pessoa dela... e o fato de quase todos os críticos serem 'culturalmente colonizados a tal ponto de não conseguirem enxergar que viviam num país totalmente dominado pela cultura cinematográfica norte-americana.



'Springtime in the Rockies' foi, talvez, o filme que mais irritou os brasileiros. Não se conformavam que Carmen 'rebolasse' para os yankees. Aqui Carmen dança acompanhada pelo 'Bando da Lua'... os brasileiros 'morriam de vergonha! Talvez pelo Bando da Lua serem todos morenos? Além de usarem bigodinhos 'mexicanos'?  O brasileiro se identificava com John Wayne, Clark Gable... onde já se viu ser 'moreno'?
PRÓ
Na qualidade de fã de Carmen, não quero ser exagerada na sua inclinação pela tela. Nós, brasileiros, devemos incentivar nossos artistas para que eles possam conseguir o estrelato maior, e nunca desmerecer seus dotes. Pergunto aos do 'contra', quais foram os artistas brasileiros que estiveram na terra de Tio Sam e fizeram sucesso? Nenhum deles, a não serem agora os quatro anos de gloria de Carmen Miranda. Lá estiveram Lia ToráRaul RoulienOlympio Guilherme e outros, que nada conseguiram, regressando desanimados. Mais uma pergunta aos do 'contra': Qual foi o artista nosso que procurou fazer propaganda do Brasil? Carmen foi a única. Julgando seus filmes, nenhum deles deixou a desejar. Para mim, foram ótimos. Sou fã de Carmen por dois motivos: por ser boa filha e ser ótima estrêla.    ELZA BARBOSA   Rio de Janeiro-DF    15 Jun 1943.

Raul Roulien, ator brasileiro que trabalhou em Hollywood no início dos anos 30. Apareceu em 'Delicious' [1931], cantando musica inédita de George Gershwin. Em 1933, fêz  par com Dolores Del Rio em 'Flying down to Rio'  [Voando p'ro Rio]. Ele só não foi vilipendiado pela 'inteligentzia' brasileira porque teve que abandonar Hollywood, tendo se indisposto contra o 'studio system' quando fez questão de processar John Houston por ter atropelado e matado sua esposa. Os 'bosses' de Hollywood não o perdoaram e ele não teve alternativa a não ser voltar p'ra cá.

Lia Torá esteve por Hollywood também, mas só fez pontas em filmes esquecíveis.
Olympio Guilherme, outro brasileiro que pôs seus pés em Hollywood nos anos 30. 

PRÓ
É certo que as grandes personalidades foram e continuam sendo objeto das mais desencontradas críticas. Boas ou más, justas ou não, certas ou erradas, não importa. O fato é que há sempre uma tendência forte para falar nos nomes iluminados pelas luzes ofuscantes da celebridade. Carmen encontra-se nesse caso. Muitos reconhecem nela a simpática artista que logrou atingir o zenith da gloria por ser, de fato, notável. Já outros pensam de maneira diversa, mas pensam. Por quê? Porque o célebre desconhece o impossível.  Se alguem afirmou ser Carmen ingrata, espalhafatosa, isenta de atributos artísticos, não significa isso, em absoluto, que ela faça jus a tais comentários, pelo contrário. Conquanto pareça paradoxal, isso significa que Carmen é uma criatura querida e apreciada, popularíssima, pois o que é desconhecido não pode ser notável e porque não é notável, é indigno de realce público. Porisso afirmo de coração: Quanto mais ouço e leio sobre Carmen, mais me convenço de sua notabilidade. Ela canta e dansa com um modo incomparável. Carmen faz um paralelo com as melhores figuras da constelação cinematográfica.  VITORIA DAVID    Rio de Janeiro-DF.  15 Junho 1943. 
Hollywood, California - 2012.
CONTRA
Não sei porque motivo "os historiadores do futuro quando escreverem a nosso respeito", irão lembrar Carmen Miranda! E penso que o autor dessas palavras, aqui publicadas em numero anterior, deve envergonhar-se de as ter escrito. Será brasileiro? Bem, si não fora então a coisa é ainda peor... Sim, porque embora sem "desmerecer o trabalho de embaixadores, diplomatas, etc.", afirmar que Carmen foi quem fez o Brasil conhecido na América do Norte, toca as raias do absurdo. É ignorar muita coisa. Ignorar, por exemplo, que o governo brasileiro fez voltar o melhor de suas atenções para o mercado yankee e para ali fez que se voltassem também, as vistas do nosso povo. Havia um 'bureau' de propaganda das nossas coisas há muitos anos, iniciativa de Francisco Silva Jr., e 'bureau' que o ministro Oswaldo Aranha observou de perto, quando esteve em Washington como nosso Embaixador. Data da estada de Osvaldo Aranha na América, o advento dessa fase maravilhosa de aproximação do Brasil com os EEUU.
Depois, foi a Feira Mundial de Nova-York, outro 'motivo'  sabiamente aproveitado pelo nosso governo, e onde o pavilhão do Brasil fazia concentrar as curiosidades maiores da exposição. Depois, veio a expectativa da guerra, o bom entendimento entre os nossos governantes e os da América do Norte, a necessidade de combater o perigo nazista em todo o Continente, veio Pearl Harbor, e finalmente, veio toda a situação atual, com o Brasil marchando para a Vitória, lado-a-lado do grande país amigo e aliado. Nisso tudo, que papel teve Carmen Miranda, senhor fansinho risonho? Cantarolava seus sambinhas-de-breque, enchia o pé de meia e mandava dizer-nos que não precisa de nada que é nosso. É tempo de acabar mesmo com esta 'enquête', pois a mesma está fazendo é jogar por terra, de uma vez, o que ainda reserva das simpatias porventura existentes em favor dessa trêfega sambista que só não canta fados... porque não dão dinheiro. Si dessem dinheiro...   MOREIRA FILHO Rio de Janeiro-DF.   15 Jun 1943.

Nota do blog:  Mais um homem destilando veneno racista. Esse chega a quase via de fatos ao chamar um pró-Carmen de 'senhor fanzinho'. O ódio contra Carmen vai além dos filmes em si, vai contra o próprio samba, ou 'seus sambinhas-de-breque', esse rítmo 'negróide'. Não contente, ele investe no jargão da Direita: 'Volte p'ro seu país!', no caso, Portugal, onde Miranda nasceu. Enfim, um típico caso de totalitarismo instransigente. Provavelmente fascista, já que enaltece o oficialismo do governo Vargas às ultimas.

Carmen Miranda posa ao lado da vencedora do concurso de melhor cafeteira durante a Feira de New York de 1939.
Carmen na New York World Fair 1939 - 1940.
PRÓ

... Nos filmes de Carmen Miranda há propaganda do Brasil. Vide o ambiente fino apresentado em "Uma noite no Rio". A crítica, absolutamente não condenou Carmen, como alguns estão fazendo aqui. Condenou a mediocridade da direção, do argumento, o péssimo maquilador, a falta de gosto dos desenhistas de costumes, a má filmagem que prejudicou 
Carmen, mas a sua interpretação foi bastante apreciável. Também precisamos reconhecer que os filmes de Carmen são um adorável meio de alegrar, divertir, fazer o povo esquecer o terrível do momento atual. Filmes otimistas, encantadores... Enquanto La Miranda fizer seus papéis despreocupados e continuar filmando, o tal do bigodinho, Hitler, não precisa nem por sombras pensar em guerra-de-nervos para nós, os da América. Ave, Carmen!

RUBENS COSTA   Ponte Alta-SP   15 Jun 1943.

Revista 'A Cena Muda'    22 Junho 1943

PRÓ

O papel que poderia consagrar Carmen Miranda apareceu mas não lhe foi dado. A dona Sol de 'Blood and sand' [Areia e sangue]. Agora que tudo passou, não adianta mais falar, é tarde. Carmen não espiou a malícia, como dizem por aí. E perdeu a possivel consagração. Tinha o tipo e alma de Sol, poderia cantar de dansar, estaria dentro de suas possibilidadees. Preferiu 'Weekend in Havana'. Depois veio a portuguesinha de 'Tortilla Flat'. É tarde também. Si tivesse conquistado estes dois papéis, Carmen teria vencido. Foi lástima. Si é que os diretores estão lendo estas opiniões, dirijo-me a eles. Que façam um filme de ambiente tropical, da ação no Brasil, por exemplo, sem futilidades, terminando com uma apoteose - Carmen cantado 'Canta, Brasil'. Si os americanos ouvirem a música, de certo não deixam passar tal oportunidade. Ainda não fizeram um filme contando a historia da heróica bailarina francêsa que morre para ser fiel à patria invadida pelos nazistas. Ou a historia de uma cantora sul-americana que não alcança êxito nos EEUU senão quando começa a divertir os soldados. Ou a refilmagem de 'Mata Hari', com Carmen à frente... Que dizem? Ponham os argumentistas na atividade... e será o bastante.   W. R. DE OLIVEIRA LEAL   Santos-SP.

Nota do blog:  Embora W.R. seja pró-Carmen, bem que poderia ser 'contra'. Ele faz uma espécie de 'Samba do criolo doido', pondo Carmen dançando e cantando em 'Sangue e Areia', no lugar de Heddy Lamar em 'Tortilla Flat' ou substituindo Greta Garbo em nova versão de 'Mata Hari'. Com fãs assim, a Carmen estava 'frita' mesmo! Pelo menos a carta é divertida, diferentemente das do 'contra', cheias de veneno e má-fé.

CONTRA

Afinal, o que motivou esta grande polêmica estendendo-se por tantos mêses seguidos nas páginas de 'A Cena Muda'? Apenas o fato de Carmen ter desconsiderado os brasileiros. Esse seu hábito é antigo, não de hoje. Aqui em Campos-RJ, de uma vez, Carmen apareceu com outros elementos de radio para atuar num teatro e o diretor da nossa estação de radio, foi convidá-la para ir ao estúdio receber uma homenagem da população local. Carmen torceu o nariz, falou grosso e sugeriu que se arranjasse 'uns cobres' do comercio local, para lhe pagar essa apresentação. Carmen não liga a homenagens, a considerações especiais do público. Ela quer é a 'nota' e quem duvidar disto, pergunte aos diretores da nossa estação-de-radio. Ele aí está para dizer si isto aconteceu ou não. Não foi em Havana e sim em... Campos! 

Não admira que agora, lá nos EEUU, Carmen mande dizer aos cronistas brasileiros que não adianta falar mal... O certo, no entanto, é que socialmente falando, Carmen está completamente esquecida. Onde aqueles rumores de outrora, os telegramas, as homenagens à Embaixatriz do Samba? E nunca o Brasil esteve tão entrelaçado aos EEUU. Agora, Carmen limita-se a aproximar-se de todos os nossos patricios que por lá aparecem, em Hollywood, servindo de uma espécie de 'cicerone'... Como já fêz  Roulien, quando alí esteve. Mas quanto às suas atuações cinematográficas, não serão esses recursos que podem melhorá-las.    JACI F. VARELA   Campos-RJ.

PRÓ

Há pessoas que tentam destruir com palavras venenosas, o que outras contróem com ações e sacrifícios. Para quem fica de fóra, a coisa parece fácil, mas quem fôr enfrentar as câmeras, refletores, os diálogos etc., verá que o trabalho é duro. Carmen, sem dúvida, é a artista brasileira mais discutida em todo o país, por ser justamente a que venceu em todos os sentidos. Naturalmente, não possue experiência teatral como uma Bette Davis, mas na sua arte, isto é, cantar e mexêr com a gente, não há outra igual. O 'môlho' que ela tem não adquiriu em parte alguma: nasceu com ela. Para finalizar, aconselho à querida artista entrar para o blóco que possue por divisa: 'Falem mal, mas falem de mim'.    WILSON BUECHEN     Rio de Janeiro-DF                   22 Jun 1943.

CONTRA

Houve quem puzesse em dúvida o fato de Carmen Miranda ter mandado aqueles desafôros para a crítica cinematográfica do Brasil. Esquecem-se esses, no entanto, que o fato foi divulgado pelas colunas desta revista, em artigo assinado por Celestino Silveira. E Celestino não iria fazer uma declaração dessas, sem ser verdade. Carmen não desmentiu. Si fôsse falsa a acusação ela - que tem por aqui quem lhe mande todos os recortes falando a seu respeito - prontamente agiria nesse sentido. Não o fêz porque sabe a quem falou e o que disse em relação à crítica brasileira quanto aos seus filmes. E não deve ter sido uma pessoa qualquer, sem representação social, mas alguém de grande prestígio, porque do contrário Celestino não daria crédito a essas palavras. Portanto, está de pé a atitutde deselegante da 'estrêla' e dizer que foi falsa a acusação, é querer ser mais realista que a própria 'rainha' - que já perdeu o trôno. Quanto à atuação cinematográfica de Carmen, melhor seria deixarmos que ela continuasse trabalhando como bem entendesse sem nos preocuparmos com o que faz ou deixa de fazer. Parece que estamos gastando cêra com ruim defunto. Com o tempo, o público se convencerá disso e os filmes irão dando cada vêz menores receitas. E a artista terá o prêmio da sua ingratidão, como acontece a toda gente que assim procede. O fato de estarmos discutindo por tanto tempo a personalidade dessa senhora, devia ser interpretado por ela como uma consideração toda especial, mas a decepção é grande. E creio que mesmo os mais aferrados e intransigentes de seus fãs, lá no íntimo, a esta hora, devem estar convencidos de terem defendido o que não merecia tão inflamada defesa. Porque para se 'defender', Carmen está sosinha e não precisa quem a ajude... CARLINHOS MOREIRA   Belo Horizonte-MG      22 Jun 1943.

PRÓ

Uma simples pergunta que ao meu vêr não ofenderá a ninguém:  Quem gosta do que não presta, tem porventura alguma noção do bom e do ruim? Penso que não. Por isso, tenho a dizer aos senhores do 'contra', o seguinte: Quem desconhece o lúcido espirito dos nossos aliados do norte? Quem poderá obscurecer a claridadde com que os ianques apreciam as coisas? Ninguém, não é certo? Então, si Carmen não tem nada que se aproveite, si caiu espetacularmente, si não possue arte ou encanto, porque motivo venceu na terra de Tio Sam? Depois, não passa de grande ingratidão dizer que a Pequena Notável esqueceu os compositores brasileiros, que não canta mais samba! Que culpa tem a nossa artista si os diretores as escolham, e si assim não o fazem, que fazer também? Isso dos filmes que a mesma tem feito até agora não lhes agradem, não vem a ser nada, porque, em que influirão as opiniões maldosas de alguem na carreira de uma artista? Carmen é Carmen, é a dogmatização cabal de uma estrêla que tem como perpetuação de sua glória os pés e mãos gravados no inquebrantável cimento do Teatro Chinês, fato aliás, 'incortável', mesmo porque eu jamais vi 'tesoura' que retalhassse essa substância...  JOSELITO MATOS  Alagoinhas-BA        22 Junh 1943.


Carmen tendo seus sapatos impressos em cimento no Chinese Theatre em 24 Março 1941.

CONTRA

Cada vêz estou soltando mais estrondosas gargalhadas vendo os apuros em que se encontram os fãs fanáticos de Carmen Miranda! E penso que ela, lá de Hollywood, há de fazer o mesmo, dizendo com os abacaxís de sua próxima fantasia cinematográfica - 'Si não fossem os bôbos, que seria dos sabidos?' E das sabidas também. Já apareceu até quem aconselhasse a deixar Carmen em paz, colocando em seu lugar Corinne Luchaire. Mas o que tem uma coisa com a outra? Outro defende a pobrezinha sem nenhuma argumentação lógica, dizendo como num desabafo supremo: 'Sou fã de Carmen porque sou, acabou-se!' Quer dizer: Não sabe declarar porque gosta da moça. Feitiçaria não é, que eu conheço! Mas o mais engraçado é a moça do Espírito Santo que escreve isso: 'Eu sei que os senhores teem razão em muita afirmação que fazem. Carmen, no cinema, não foi o que também esperava. Carmen silenciou quanto ao Brasil e os brasileiros. Carmen é ingrata, mas o que querem?' Ora, meus amigos, isto é o cúmulo da obstinação! Outra senhorita aponta os fãs inglêses que não insultaram Vivien Leigh só porque fêz uma norte-americana em 'E o vento levou'. Mas, pelo amor das suas tias, que tem uma coisa com outra? Nós gostaríamos que Carmen fizesse grandes papéis de norte-americanas... O que lamentamos, é ela fazer papéis 'tristes'... tristes papéis sem nenhuma revelação artística, isso sim. E o fã que declara ser Carmen Miranda uma revolucionária? Eu estou vendo é que de São Paulo - e principalmente de Santos - estão vindo muitas opiniões pautadas pela mesma idéia. É natural. Carmen possue a seu lado, no Brasil, um contingente de repazes que ainda a estão vendo como nos bons tempos do 'Tahí' e da 'Bonequinha de pixe'. Eu acredito no mérito de Carmen em tudo que quiserem, mesmo no cinema. E acredito também que o êxito desta enquête foi completo, pois cinematográficamente falando, nem os mais ardorosos fãs da Pequena a puderam sustentar lá no alto. A queda foi em bôas condições . Agora, quanto aos sambas, aos abacaxis, aos rapazes do Bando da Lua, ao radio, ao que quizerem, não entro em discussões. Mas também, 'A Cena Muda' creou esta enquête - por sugestão dos próprios fãs de Carmen - para saber o que ela era em cinema. E como devem estar arrependidos os fãs! Arrependidos... ou decepcionados também!   MOACYR MENDES DE MELO    Rio de Janeiro-DF.

Nota do blog:  Quase sem querer, o sr. Moacyr Mendes escreve o que todos pensavam, mas não diziam: Nós gostaríamos que Carmen fizesse grandes papéis de norte-americanas... O que eles realmente ressentiam é o fato de Carmen Miranda não ser norte-americana, como a totalidade de seus ídolos-da-tela. Essa é a questão primordial aqui. Todos rebuscam suas cartas, mas não falam a verdade: todos querem ser norte-americanos e odeiam Carmen, pois essa não pode ser o que ela não é. E nem eles próprios seriam tampouco, se estivem lá em Hollywood. Então a coisa se resume num só quesito: Carmen é odiada por ser diferente do resto dos seus ídolos e 'role models'. Uma pequenêz intelectual muito grande, além de desonesta, pois escamoteia a verdade.

PRÓ

Achei que em 'Serenata Tropical', a Pequena Notável fêz  o seu 'test' e saiu-se admirável. Vi depois 'Uma noite no Rio' e pareceu-me deslumbrante. Jamais esquecerei. Essas más linguas que chamam Carmen de alucinada, têm inveja ou despeito. Acho que uma alucinada não deixa suas impressões no Chinese Theatre e nem no Rorcy Broadway . 'Aconteceu em Havana', sem as musicas de Carmen não valeria nada. Para mim, o cartaz de Carmen nunca vai cair. Já sabemos de seus dois proximos filmes, 'Primavera nas Rochosas'  e outro em colaboração com o governo do Mexico, este será um verdadeiro triunfo, o maior sucesso da Garôta. E depois ainda fará outro com Alice Faye. Por tudo isso, acho que Carmen é a Estrêla das Estrêlas.   JORGE GIORNO    Rio de Janeiro-DF

CONTRA

Sendo fã há 8 anos de 'A Cena Muda', venho acompanhando os prós e contras de Carmen Miranda. Para mim, ela só possue uma virtude: a vóz. Lastimo imensamente a sua presença ao lado de John Payne e Alice Faye, estrêlas que possuem talento artístico, coisa que La Miranda nunca, jamais, em tempo algum, conseguirá. Quando vou assistir a mais um filme da sambista, reparo bem os seus olhos revirados, os gestos, feios e desageitosos. Até gorda ela está. É uma lástima. Eu a considero ainda habilitada a ganhar alguns cartazes na America do Norte, mas si não melhorar, devemos escrever-lhe pedindo que volte. Depois, talvez, tudo tenhamos esquecido e a perdoaremos.  RENILVA VENTURA     Rio de Janeiro-DF.        22 Jun 1943.

PRÓ

Quando a Metro precisou de uma personagem em voga para Mickey Rooney imitar em 'Calouros da Broadway', quem escolheu? Carmen. E no entanto havia muitos outros, por exemplo, Dorothy Lamour do sarong, Mae West das curvas, Veronica Lake do cabelo-parabrisas, Martha RayeRitzMarx etc. O sucesso foi absoluto. E agora, dois segrêdos: Sabiam que Betty Grable é a segunda estrêla mais antipática e menos querida de Hollywood? Mais que ela só  Madeleine Carroll. Que o maquilador de Alice Faye faz prodígios para consertar-lhe os olhos de peixe-morto e a tendência visível de possuir três queixos? Si não sabiam, saibam! Acho que se mostrassem seus defeitos tais artistas não se veriam em moda, não? No entanto, os defeitos de La Miranda são a última novidade. Bôca exagerada pelo batom, sapatos de 15 centímetros de salto, turbantes , gesticulação, cantar arregalando os olhos... E quanto a achar que ela é desaforada, estou contra. Nem ingrata. Si fôsse, já teria acabado com esta enquête usando sua brutalidade em resposta às inalcançaveis alfinetadas que estão tentando dar-lhe. Não é mesmo?   ANABELA  LEE SILVA     São Carlos-SP             22 Jun 1943.

Veronica Lake e seu cabelo 'parabrisas'.
Madeleine Carroll, a mais antipática de Hollywood.
Betty Grable tinha pernas, porém o rosto era comum... além de ser a 2a. mais antipática de Hollywood.
Dorothy Lamour e seu famoso sarong.
Raul Roulien no set de 'Delicious' [1931] posa ao lado de uma bandeira brasileira, com seu colega Brendel batendo a continência.
O par-moreno de 'Flying down to Rio' in 1933 - a mexicana Dolores Del Rio e o brasileiro Raul Roulien.
Leia mais sobre 'Voando p'ro Rio' em: http://cinefilia.fezocasblurbs.com/archives/005072.html

Carmen Miranda ajuda Mickey Rooney em sua imitação dela em filme da MGM em 1941.
Marcas dos sapatos e mãos de Carmen na calçada da fama em Hollywood - 24 Março 1941.

Praça Carmen Miranda em Hollywood, California, USA.
'Aquela noite no Rio'; 'Aconteceu em Havana'.
'Minha secretária brasileira' (Springtime in the Rockies).
'Sangue e Areia', sucesso de 1942.

1 comment:

  1. IT WAS A GREAT ARTICLE...I ONLY WISH I COULD HAVE READ ALL THE PORTUGUESE... BRAZILIANS WILL NEVER UNDERSTAND WHAT SHE DID FOR THEIR COUNTRY...MOST PEOPLE DID NOT EVEN KNOW WHERE BRAZIL WAS UNTIL SHE CAME ALONG AND MADE EVERYONE AWARE OF RIO, BRAZIL & SAMBA AND THEY L O V E D HER FOR WHAT SHE WAS.....NO ONE PERSON CAN REALLY BE WHAT A COUNTRY REALLY IS..BUT SHE CONVEYED HAPPINESS.. AND BOUGHT IT TO THE WHOLE WORLD WHO NEEDED IT IN THIS TIME OF WAR AND SHE SHOULD HAVE BEEN HONORED AS SOON AS IT FINSIHED FOR HER GREAT CONTRIBUTION... FOUND ONE PHOTO I DID NOT HAVE TOO, BEST WISHES ...SEE YOU SOON, RON

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